Francis Bacon (1561 -1626)
A verdade, que só a si própria julga, ensina que a sindicância da verdade, que é o amor ou o carinho por ela, o conhecimento da verdade, que é sua presença, e a crença na verdade, que é dela desfrutar, é o bem soberano da natureza humana. A primeira criatura de Deus, no lavor dos dias, foi à luz do sentido; a última foi a luz da razão; e seu lavor sabático desde então tem sido a iluminação do Espírito. Primeiramente, verteu o alento da luz sobre a face da matéria ou caos; depois verteu o alento da luz sobre a face do homem; e todavia verteu e inspirou o alento da luz sobre a face dos seus escolhidos. O poeta embevecido com a seita que, de outra forma, seria inferior ao restante, disse ainda muito bem: É um prazer postar-se no cais a ver navios lançados ao mar; um prazer postar-se na janela de um castelo e assistir ás batalhas e aventuras que se desenrolam diante dos olhos; mas não há prazer que se compare a postar-se o venturoso solo da verdade (colina que jamais se submete, e onde o ar é eternamente puro e sereno), e avistar os erros e devaneios e as névoas e tempestades no vale defronte; para que essa perspectiva seja sempre plena de piedade e nunca de indignação ou orgulho. É certamente o paraíso na terra conseguir que a mente do homem aja com caridade, repouse na providência e gire sobre os pólos da verdade.
Passando da verdade teológica e filosófica para a verdade dos empreendimentos civis: será reconhecido mesmo pelos que não a pratiquem que uma negociação clara e honesta é a honra da natureza humana ; e que uma mescla de falsidade é como uma liga inserida numa moeda de ouro e prata, que pode conferir melhores propriedades ao metal, mas o corrompe. Pois esses volteios sinuosos são a trajetória da serpente, que arrasta a barriga junto ao chão em vez de caminhar sobre os pés. Não há devassidão mais vergonhosa para o homem do que a falsidade e a perfídia. Portanto, belas foram as palavras de Montaigne ao indagar por que a mentira constituiria tamanha desgraça e tão odiosa acusação: Atribuindo justos pesos e medidas, dizer que um homem mente equivale a dizer que ele é corajoso diante de Deus e covarde diante dos homens. Pois a mentira confronta Deus e subtrai-se diante dos homens. A malevolência da falsidade e a violação da fé não se pode expressar tão bem quanto ao dizer-se que serão as últimas badaladas invocando que o julgamento divino recaia sobre as gerações dos homens; já tendo sido profetizado que, quando Cristo vier, não encontrará fé sobre a face da terra.
*Fonte: Livro das Virtudes
Autor: William J. Bennett
Editora: Nova Fronteira
Digitado por: Ruan Victor Oliveira da Silva
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
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