terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A VERDADE

Francis Bacon (1561 -1626)
A verdade, que só a si própria julga, ensina que a sindicância da verdade, que é o amor ou o carinho por ela, o conhecimento da verdade, que é sua presença, e a crença na verdade, que é dela desfrutar, é o bem soberano da natureza humana. A primeira criatura de Deus, no lavor dos dias, foi à luz do sentido; a última foi a luz da razão; e seu lavor sabático desde então tem sido a iluminação do Espírito. Primeiramente, verteu o alento da luz sobre a face da matéria ou caos; depois verteu o alento da luz sobre a face do homem; e todavia verteu e inspirou o alento da luz sobre a face dos seus escolhidos. O poeta embevecido com a seita que, de outra forma, seria inferior ao restante, disse ainda muito bem: É um prazer postar-se no cais a ver navios lançados ao mar; um prazer postar-se na janela de um castelo e assistir ás batalhas e aventuras que se desenrolam diante dos olhos; mas não há prazer que se compare a postar-se o venturoso solo da verdade (colina que jamais se submete, e onde o ar é eternamente puro e sereno), e avistar os erros e devaneios e as névoas e tempestades no vale defronte; para que essa perspectiva seja sempre plena de piedade e nunca de indignação ou orgulho. É certamente o paraíso na terra conseguir que a mente do homem aja com caridade, repouse na providência e gire sobre os pólos da verdade.
Passando da verdade teológica e filosófica para a verdade dos empreendimentos civis: será reconhecido mesmo pelos que não a pratiquem que uma negociação clara e honesta é a honra da natureza humana ; e que uma mescla de falsidade é como uma liga inserida numa moeda de ouro e prata, que pode conferir melhores propriedades ao metal, mas o corrompe. Pois esses volteios sinuosos são a trajetória da serpente, que arrasta a barriga junto ao chão em vez de caminhar sobre os pés. Não há devassidão mais vergonhosa para o homem do que a falsidade e a perfídia. Portanto, belas foram as palavras de Montaigne ao indagar por que a mentira constituiria tamanha desgraça e tão odiosa acusação: Atribuindo justos pesos e medidas, dizer que um homem mente equivale a dizer que ele é corajoso diante de Deus e covarde diante dos homens. Pois a mentira confronta Deus e subtrai-se diante dos homens. A malevolência da falsidade e a violação da fé não se pode expressar tão bem quanto ao dizer-se que serão as últimas badaladas invocando que o julgamento divino recaia sobre as gerações dos homens; já tendo sido profetizado que, quando Cristo vier, não encontrará fé sobre a face da terra.

*Fonte: Livro das Virtudes
Autor: William J. Bennett
Editora: Nova Fronteira
Digitado por: Ruan Victor Oliveira da Silva

A VERDADE E AMENTIRA

Houve uma ocasião em que a Verdade e a Mentira se encontraram numa estrada.
-Boa Tarde!- disse a Verdade
-Boa Tarde – retrucou a Mentira. -Como você tem passado.
-Sinto dizer que não vou lá tão bem. Sabe, os tempos andam difíceis para uma pessoa como eu- lamentou a Verdade.
-É, dá para perceber-disse a Mentira, olhando de cima a baixo as roupas esfarrapadas da Verdade.
-Parece que você não faz uma boa refeição há algum tempo.
-Para ser honesta, não faço mesmo- admitiu a Verdade-Ninguém mais quer usar meus serviços. Onde quer que eu vá, muita gente me ignora ou faz pouco de mi. Estou perdendo o ânimo, sabe. Estou começado a me perguntar se vale à pena continuar assim.
-E por que diabos você continua¿ Venha vou lhe mostrar como se dar bem.Não a razão nesse mundo para você deixar de comer o que quiser, como eu, nem de se vestir roupas,como eu.Mas prometa que não vai dizer absolutamente nada sobre min enquanto estivermos juntar.
A Verdade prometeu e concordou em acompanhar a Mentira por algum tempo, não por gosta de sua companhia, mas por ter tanta fome que estava prestes a desmaiar se não colocasse alguma coisa para dentro do estômago. Seguiram as duas pela estrada até chegarem a uma cidade e a Mentira foi logo conduzindo a Verdade para a melhor mesa do melhor restaurante das redondezas.
-Garçom, traga a carne mais apetitosa, as sobremesas mais gostosas e o vinho mais saboroso que vocês tiverem. -pediu ela, e as duas passaram a tarde inteira comendo e bebendo do bom e do melhor. Por fim, quando já não agüentavam mais ,a Mentira começou a bater na mesa com o punho cerrado e a chamar pelo gerente, que veio correndo.
-Que diabo de lugar é esse¿ Eu entreguei uma moeda de ouro ao garçom há quase uma hora e ele ainda não trouxe o troco.
O gerente mandou chamar o garçom, que disse não ter recebido um centavo sequer daquela senhora.
-O que¿ - gritou a Mentira, chamando a atenção de absolutamente todo mundo presente-Não posso acreditar uma coisa dessas!Duas inocentes e respeitáveis cidadãs chegam a um, a casa para almoçar e vocês tentam roubar-lhes o dinheiro ganho com muito suor! Vocês são um bando de ladrões mentirosos. Podem me enganar uma vez, mas estejam certos de que não vão me ver nunca mais aqui. -Tome!-E jogou a moeda de ouro nas mãos do gerente- E não vai se esquecer do troco outra vez.
O Gerente, porém, receando a reputação do restaurante, recusou-se a aceitar a moeda e trouxe o troco para a primeira que a Mentira dizia ter entregado o garçom. Levou depois o garçom para um canto, e lhe chamou de canalha e disse que estava pensando em demiti-lo. E por mais que o pobre negasse ter recebido um centavo sequer da freguesa, o gerente continuou sem acreditar nele.
-Ora essa, onde foi parar a Verdade¿-murmurou baixinho o garçom -Será que ela abandonou as pobres almas devotadas¿
-Não estou bem aqui -resmungou a verdade consigo mesma -Mas meu juízo cedeu á minha fome e agora não posso dizer nada sem quebrar a promessa que fiz a Mentira.
Assim que as duas saíram na rua a mentira soltou uma tremenda gargalhada e se vangloriou para a verdade.
-Esta vendo como o mundo funciona¿ Você não acha que eu me saí muito bem¿
Mas a verdade se afastou dela.
- Prefiro morrer de fome a viver como você.
E então a Verdade e a Mentira se separaram; e jamais tornaram a se encontrar.

Fonte: Livro Das Virtudes de William J. Bennett – Editora Nova Fronteira.